domingo, 13 de dezembro de 2009

final infeliz

daqui vejo o amor escorrer silencioso. e por mais que faça isso sem alardes, meus poros sentem sua partida. veneno vagaroso. cortante, ardente, escaldante. e nada sangra mais que essa paz de trincheiras. nada mata mais que essa sua guerra fria. antes me atravessasse o cinete às entranhas. antes me torturasse com mil crueldades. me bata! se zangue! o amor evapora, fumaça, neblina e você nem se move. e nada fere mais que esse riso vazio. um frio me rasga a espinha ao vê-lo amável e passivo. antes fosse cínico, rude, covarde. antes urrasse e me estilhassasse assim em milhares de partes. e mesmo que você não tentasse encontra-las eu teria ouvido o seu grito de guerra, seu coração em disparate. o amor se esvaindo, o amor desvanecendo, o amor... indo. e mesmo que ele morresse, não seria letal: se você lutasse. bandeira branca. amor, descanse em paz. só não me olhe como se lamentasse.

em foco (invoco): foto de autor desconhecido

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

sobre colos e vinhos

hoje quero colo sem querer ninguém. como a solidão me embalasse. ninasse meus medos, sem me encorajar. e não cantasse pra me acalentar. não quero voz doce, nem cafuné. dedos levinhos dando passeio no rosto... beijinhos na testa... abraço espaçoso da gente se caber nele... hoje não. hoje eu quero a saudade e o silêncio. e que eles cheguem às nove. com um bom vinho.
em foco (invoco): bruno silva

terça-feira, 24 de novembro de 2009

identidade

o que não leva aspas sou eu.

outono agora

às vezes, quando faz tarde da noite, o outono me vem soprar folhas no ouvido.

cochicho de outono não arde nem esfria.

o outono é longe!

conheço seu canto. mas de seu cheiro nem desconfio...

o curioso é que o outono me desperta primaveras.

e com ele sempre é tarde, mesmo quando noite.

o outono...

eu quero um pra hoje!

em foco (invoco): walter antunes - olhares.com

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

controle de qualidade

virge maria! a árvore escorreu todinha com a chuva!

em foco (invoco): pedro leite

cantada

sua sombrinha tem telefone?

em foco (invoco): pedro leite - olhares.com

varal de amores ou "é bom quando a gente pode lavar a alma sem fazer com que o amor encurta"

com jeito de quem distribui flores, joana estendeu sua alegria na janela. não que ela fosse de esbanjar cores, ou quisesse enganar beija-flores. joana não era dessas. ela estava mesmo em vias de amores, em vesperais de estrela cadente que mesmo passando ligeira carrega o olhar da gente.

é que Joana, que sempre foi de rosa, se engraçou com um amarelo todo prosa. e desde esse dia, afinal, ele habita o seu varal. às vezes leva sabão. outras até esfregão. joana lava a roupa suja na pia de chorar. e nem beijozinho molhado faz Joana amaciar. aí ela alveja o passado, põe o coração pra quarar. daí estende outra primavera. dessa vez com mais cuidado, pro amor não avoar.

em foco (invoco): rodolfo barreto - http://www.flickr.com/photos/nonstoplace/ (o segundo título também é dele. danadinho!)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

amor de ocasião

você é o grande amor da minha vida dessa noite. desvire a chave do medo. invente uns segredos. distorça as lembranças. você agora é minha paixão desde a infância. o meu mais doce brinquedo. um colo de paz e carinho. me abrace qual ninho (você pode ser o meu esconderijo…) vou lhe derramar meu silêncio. perdoe a falta de jeito. eu não sei chorar sozinho. você é o meu amor de horizonte. meu passo mais firme no abismo. caminho calçado de nuvem (você esconde um céu no vestido?) ah, você é sim o grande amor da minha vida dessa noite! e eu imploro às estrelas que não se apaguem.

em foco (invoco): miguel castro

sexta-feira, 3 de julho de 2009

de pedra sabão

Sem título às vezes penso que deus acertou em tudo. outras que ele errou na mão. já vim nascida com esse olhar desajustado que ora desvê e que ora desvela. um olhar nem que sim, nem que não.

meu coração não é de chamegar certezas. meus pés também não tão pra chão. dou graças de não ter vindo manca das asas. benza deus! só não me botaram o tal freio na língua, mas tenho as mãos feitas de bom algodão.

uma vez escutei um cochicho de fada e amanheci fazendo milagres. nesse dia a esperança nem precisou ser verde. tudo era são.

desde pequena componho infinitos. adorno segredos com fita e xitão. às vezes penso que deus acertou em tudo. outras que ele errou na mão. nasci assim, feito flor amassada. sou doida de pedra sabão.

em foco (invoco): nunes beirão - olhares.com

segunda-feira, 25 de maio de 2009

conto meu na Revista Crescer!

Quando eu crescer, eu vou poder brincar a hora que eu quiser. Vou poder andar de bicicleta na chuva, nadar no fundo da piscina e soltar pipa com cerol. Vou tomar depois do almoço, todos os dias, três sorvetes: um de morango, um de chocolate e outro de… morango! Ninguém vai me mandar comer tudinho para eu ficar forte, nem dizer que jiló é bom. Pensando bem, o médico vai me proibir de comer jiló quando eu crescer. Outra coisa é que eu não vou ter que emprestar os meus brinquedos para ninguém, nem vai ter com quem serááá no meu aniversário. Ah, também eu não vou mais, nunca mais, ganhar meia ou cueca de presente e ninguém vai me perguntar o que eu vou querer ser quando eu crescer porque eu já vou ter virado astronauta. E quando eu for grande as pessoas já terão aprendido a fabricar armários sem monstros. Eu sempre serei o dono da bola e do campo e do gol e o artilheiro será o meu melhor amigo. Quando eu crescer não vai ter mais escola, vai ter trabalho, mas mesmo assim não vai ter dever de casa. Eu vou poder gangorrar tão alto, mas tão alto no balanço que meu pé vai furar a nuvem. E a minha mãe não vai ligar do meu uniforme ficar todo sujo. Nem se eu não escovar os dentes, nem tomar banho, nem ver televisão depois do almoço nem ficar jogando video-game até de noitão, nem se eu bater no meu irmão e nem se eu quebrar as coisas de vidro que tem dentro da minha casa. Mas algumas coisas vão ficar bem iguais: meu pai nunca vai ficar cansado e vai brincar de cavalinho comigo sempre que eu quiser. E, principalmente, minha mãe vai me contar todo dia uma história para eu dormir quando eu for grande. ilustração: daniel lourenço

terça-feira, 19 de maio de 2009

e de repente o mundo inteiro cabia em seu olhar

em foco (invoco): carlos lopes franco - olhares.com

sexta-feira, 17 de abril de 2009

assalto

Luz de Brasília "o pôr-do-sol é a troca de guarda da natureza"

(esse poema foi roubado à mão armada. não me lembro a data. sei que sua beleza me doeu nos cotovelos. as aspas são a única prova do crime.)

em foco (invoco): kleber fernandes - olhares.com

quinta-feira, 16 de abril de 2009

emergência

quando a ausência parece a morte...

- espia: alguém jogou a infância fora!

- coitadinha dela...

- socorram essa pessoa!

em foco (invoco): rattus - olhares.com

quinta-feira, 9 de abril de 2009

confissão

deus me mima muito.

segunda-feira, 16 de março de 2009

tempo: amor-ido

Manter a vida... - é seguido que essa vem aqui?

- constante.

- e quando chove?

- aí falha.

- sabia!

- sabido!

- ara! e faz o que?

- eu?

- não! essa:

- passa o dia ajeitando o quieto. ca-la-di-nha.

- troço sem jeito enfeitar defunto!

- defunto… essa aí é mais de florear silêncios.

- então é viúva.

- não diga!

- eita! tá de esgueio comigo, é?

- de jeito nenhumesmo!

- mas então? é viúva mesma?

- de véu e desgrinalda!

- ôh dó!

- ôh dor!

- solidão que brota: definha.

- consinto. saudade alada a de um amor-ido. crescedeira.

- silenciosa!

- silenciadora.

em foco (invoco): vitor tripologos - olhares.com

anúncio de malas

Madrid Barajas Airport rednick: ficou muito mais fácil carregar seus fardos.

em foco (invoco): bruno rodrigues - olhares.com

domingo, 8 de março de 2009

dia internacional da mulher: será que é pouco ser humano?

em foco (invoco): "um filme sem sexo", de cris guerra e daniel de jesus - lapisraro.com.br

sábado, 28 de fevereiro de 2009

tempo: correnteza

Velhos Amigos... - desde quando é esse rio?

- desde sempre.

- é tempo! e ele sempre foi assim desse jeito?

- de que jeito?

- aguado.

- ah... bastante.

- aposto que incha quando chove.

- ih... esvazia demais!

- e esvazia como, se embebeda de água?

- esvazia de ser. até muda desse jeito aguado! joveia, sabe?

- sei demais. o rio é um camaleão desembestado. ninguém tomba vezes num mesmo rio só.

- deus mesmo nem se cuspiu de afivelar ele num traço de vida e de morte! é um sempre esse aguado. já botou reparo no tempo? que esse não tem ré? o rio é carne e unha com esse aí. e ainda se glosa tirando partido do eterno.

- mas será se antes do sempre ele escolheu caminho? ou foi condenado a servir no curso sempremente? viver tem suas pagas.

- bestagem! não há prenda maior que a vida: nem me amolam os tributos do tempo! quando penso que findaram meus viveres, o tempo se espreguiça comprido e ganho mais uns trocadinhos de existência! pago com rugas e desarranjos da memória.

- mas sabe que eu acho que é por isso que deus criou o rio com reflexo espelhado? só pra ele espiar que nós estamos fitando nele os vincos do tempo e se rir de lambido?

- acha mesmo?

- acho.

- que aguado! pois ele não sabe que quando me envergo nas bordas é pra espiar o céu seguindo no vento que o apanhar?

em foco (invoco): josé luís garcês - olhares.com

tudo sobre minha mãe

Pequena linda Rapunzel.. minha mãe foi quem adivinhou primeiro que eu era artista. e como que divulgou pros demais!

se eu tomava lições de ballet, às segundas e quartas, logo ela começava a me vigiar:-filha, não há talento que resista ao peso. e o doce esperava pra depois. minhas sapatilhas eram sempre as melhores que se podia comprar. e no final das aulas eu tomava suplementos dignos de um atleta olímpico!

quando resolvi ser artista plástica, em vez de uma tela, ela me cedeu logo uma parede de casa. nela está registrado até hoje o que não sou.

depois dei pra fazer aulas de canto. e ela reclamou da cantoria! ara... dessa vez fui eu quem disse: - você ainda vai pagar para me ver cantar! - e ela leva a família toda!

virei atriz de teatro. toda estréia ela vai como fosse noite de gala. sabe como que mãe da noiva? em casa ela dá de-cor meu texto todinho! (ela até já ta virando um pouco artista, sabe?)

se encasqueto de fazer cinema, hollywood que a segure!

acho que quando eu era pequena, eu devo ter dito com certeza: quando eu crescer eu vou virar artista! e com esse seu jeito de fada-madrinha, ela cuida até hoje pra que eu sonhe sempre.

em foco (invoco): geisa cruvinel - olhares.com

sobre guarda-chuvas

guarda chuva
por debaixo do guarda-chuva alvi-rosa há alguém que não se mostra. mas que olhos buscariam outra paisagem?

n.a.: o guarda-chuva foi desenvolvido com capacidade suficiente para suportar muita poesia. e chuva, naturalmente.

em foco (invoco): ricardo resende – olhares.com

prece

Momentos de alegria
às vezes a infância pega a gente desprevinido. amém.

em foco (invoco): vitor tripologos - olhares.com

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

delação

Candeeiro de Rua ILUMINANDO A LUA
a noite é uma medrosa. só dorme de lua acesa!

em foco (invoco): almor loucao - olhares.com

quarta-feira, 18 de junho de 2008

verdade:

ela precisa de alguém que a invente e de alguém que a acredite.
em foco (invoco): chema madoz

quarta-feira, 23 de abril de 2008

saudade...

saudade é terra de se fazer longe. é silêncio e berro ao mesmo tempo. lembrança e esquecimento.

terça-feira, 8 de abril de 2008

discursivo

parente meu tinha queda por discurso. se anunciasse ser ocasião diferenciada, isse ele desfiando palavra qual rosário. agradecia a deus de primeiro que o resto e desembestava a falar nome de sujeito merecente de homenagem. lá pro terceiro nome, ninguém mais não ouvia ele dizendo-se. ninguém não cedia escuta, sabe? depois pararam de avisar ele dos ocasionamentos, mas como nascimento, casamento e defunto não se esconde, foi em vã a tentativa de desprover de assunto o coitado. não se via sujeito que não soubesse de cór seus palavreios, nem um que não quisesse esquecer sua cantiola. depois de um tempo o povo foi até quedando de casar. nascer e morrer é indestrutível, se sabe-se, mas houve caso de defundo pedir pra ser velado em silêncio mortal. alguns até batizaram suas crianças sem as circustâncias! e assim foram raleando-se os discursos. remedantemente, parente meu foi ficando ralo. demorou pouco pra findar pedinte. mendigando-se, sabe? arredava conversa pra qualquer cachorro esquecido. sozinhando-se mesmo. falava pros nadas e pelos cotovelos, mas não pedia cruzado ou cruzeiro e agradecia a deus de primeiro que o resto.
em foco (invoco): carlitos

domingo, 4 de novembro de 2007

o pescador de rio

seu antônio era um pescador de rio. passou trinta anos vivendo na pequena casa que contruíra pra esposa na promessa de fazê-la feliz pra sempre. nela viu nascer e criar os cinco filhos. levantava às quatro da manhã, saia com sua bicicleta enferrujada e voltava às cinco da tarde com a janta daquele dia e o almoço do seguinte. era matando peixes que ganhava a vida. e era grato aquele rio que se sacrificava diariamente pra que pudesse levar pra casa um balde de vida pendurado no guidão de sua bicicleta. e ele também aprendeu a carregar a felicidade debaixo do braço: todos os dias, sem falhar, antônio trazia pra casa um ramo de manacá ou capim-cidreira, pagando diariamente a promessa que fizera à esposa. num dia que não era certo, pois já havia começado de modo atravessado avesso, antônio saíra de casa às quatro, como de costume, e o sol quarava modo ao meio dia. claro que ele achou daquilo ser estranho, mas até gostou de sair da rotina. quando voltou com seus peixes de guidão e o ramo de manacá, antônio se disparou com o rio. ele subira em sua casa até a cintura. seus filhos não estavam lá pra comer os peixes, nem sua esposa pra tomar nas mãos sua felicidade pra sempre. era a primeira vez que o rio viera lhe cobrar sua generosidade. mesmo assim, trouxe-lhe peixe em abundância. e antônio já não tinha a quem alimentar. passou lá muitos dias esperando a esposa aparecer pra entregar-lhe o ramo de flores. depois decidiu voltar às margens de seu ofício e lá um outro pescador dissera-lhe que sua mulher partiu com os filhos pra outro lugar. já não era feliz com as flores e os ramos de peixe. partira. só então antônio entendeu o amor do rio. voltou pra casa correndo e ele ainda estava lá. com água pelos veios. não eram peixes que antônio pescava. ele era um pescador de rio. era o rio que o alimentava. então antônio chorava todos os dias pra que ele não cessasse. e jogava flores na água.

em foco (invoco): j batalha - olhares.com

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

festas: uma visão pessimista

lamento dizer que não pretendo casar, ter filhos e que não tive um baile de formatura. assim, darei uma festa em um de meus aniversários já que envelhecerei, a cada ano, inevitavelmente.
em foco (invoco): rui soares - olhares.com

terça-feira, 16 de outubro de 2007

se um dia eu passarinho...

se um dia eu passarinho sairia avoando tudo. seguiria a via-coto toda vida só pra ver ipê roxo-e-nó de chuva d’água doce que passarinho bebe, sim senhor! se curioso, curió zidade, muito prazer! vim de juarí de cima pra moda de avoador conhecer. como é? primeiro pulo, ou abro a asa? se cair, do chão eu passo? e se passar, ao ao-que-diga, digo o quê? se um dia eu passarinho sabiaria tudo do céu e da terra, de você e do meu amor. saracutearíamos... se um dia eu passarinho, canarinharia até desentardecer a tarde e a noite beija-florear.

domingo, 14 de outubro de 2007

espiamento: o exercício 2

é preciso inventar comportamento para as coisas. manoel de barros.
enfoco (invoco): christo et jeanne-claude

espiamento: o exercício

há de se empenhar olhos nessa tarefa árdua de enxergar o nunca havido. mas invista em um bom par. estes fatigados de mundeza não prestam. recomenda-se aposentá-los. não, não! não os doe! dispense-os de vez. dispense-nos do risco de tropeçar na normalidade. perfeito. eis o exercício, porém seja discreto. os mais conservadores podem nos tomar por loucos ou mundanos. (qual lhe agrada mais?). pronto. agora espie alongado e veja o que não é. em tempo: pratique sem moderação.
enfoco (invoco): man ray

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

fulinha de mariana

será se... não sendo um diário... eu posso escrever diariamente? se as palavras fossem regidas pela fulinha de mariana, elas vinham simples uma seguida da outra. sem essa peleja de escolher o depois. sábia como si só ela mesma, a fulinha de mariana despenca o ontém. e é correta de pôr a chuva no dia que vai chover pra não pegar a gente desprevinido. ela chove é no molhado mesmo. por mim... já tá molhado mesmo... palavra é mais garrada e menos correta. não é fácil da gente despencar ela pra cessar o ontém. se sendo dia de sol ensolarado, num triz, dependendo do rigor da palavra, fica tudo no cinza. oh vida! será se... não sendo de mariana... eu posso inventar uma fulinha de mariana? 1° de janeiro: nenhum cachorro vai latir na rua pra não perturbar o sono da gente. 28 de abril: feriado inter-galático por ocasião de meu aniversário. não carece de carregar sombrinha. 5 de julho: a primavera nasceu uma flor no inverno engolindo ele numa garfada só. eh vida! palavra tem poder maior na fulinha de mariana...
enfoco (invoco): mary poppins

terça-feira, 2 de outubro de 2007

bienvenu!

isto não é um diário virtual. eu não privaria aos diários a voracidade de minha caligrafia. às teclas permitirei meu bla bla bla apenas por um desejo de descarga. esse interesse pungente das palavras. saidinhas elas!