em foco (invoco): foto de autor desconhecido
em foco (invoco): foto de autor desconhecido
às vezes, quando faz tarde da noite, o outono me vem soprar folhas no ouvido.
cochicho de outono não arde nem esfria.
o outono é longe!
conheço seu canto. mas de seu cheiro nem desconfio...
o curioso é que o outono me desperta primaveras.
e com ele sempre é tarde, mesmo quando noite.
o outono...
eu quero um pra hoje!
em foco (invoco): walter antunes - olhares.com
é que Joana, que sempre foi de rosa, se engraçou com um amarelo todo prosa. e desde esse dia, afinal, ele habita o seu varal. às vezes leva sabão. outras até esfregão. joana lava a roupa suja na pia de chorar. e nem beijozinho molhado faz Joana amaciar. aí ela alveja o passado, põe o coração pra quarar. daí estende outra primavera. dessa vez com mais cuidado, pro amor não avoar.
em foco (invoco): rodolfo barreto - http://www.flickr.com/photos/nonstoplace/ (o segundo título também é dele. danadinho!)
em foco (invoco): miguel castro
às vezes penso que deus acertou em tudo. outras que ele errou na mão. já vim nascida com esse olhar desajustado que ora desvê e que ora desvela. um olhar nem que sim, nem que não.
meu coração não é de chamegar certezas. meus pés também não tão pra chão. dou graças de não ter vindo manca das asas. benza deus! só não me botaram o tal freio na língua, mas tenho as mãos feitas de bom algodão.
uma vez escutei um cochicho de fada e amanheci fazendo milagres. nesse dia a esperança nem precisou ser verde. tudo era são.
desde pequena componho infinitos. adorno segredos com fita e xitão. às vezes penso que deus acertou em tudo. outras que ele errou na mão. nasci assim, feito flor amassada. sou doida de pedra sabão.
em foco (invoco): nunes beirão - olhares.com
"o pôr-do-sol é a troca de guarda da natureza"
(esse poema foi roubado à mão armada. não me lembro a data. sei que sua beleza me doeu nos cotovelos. as aspas são a única prova do crime.)
em foco (invoco): kleber fernandes - olhares.com
- espia: alguém jogou a infância fora!
- coitadinha dela...
- socorram essa pessoa!
em foco (invoco): rattus - olhares.com
- é seguido que essa vem aqui?
- constante.
- e quando chove?
- aí falha.
- sabia!
- sabido!
- ara! e faz o que?
- eu?
- não! essa:
- passa o dia ajeitando o quieto. ca-la-di-nha.
- troço sem jeito enfeitar defunto!
- defunto… essa aí é mais de florear silêncios.
- então é viúva.
- não diga!
- eita! tá de esgueio comigo, é?
- de jeito nenhumesmo!
- mas então? é viúva mesma?
- de véu e desgrinalda!
- ôh dó!
- ôh dor!
- solidão que brota: definha.
- consinto. saudade alada a de um amor-ido. crescedeira.
- silenciosa!
- silenciadora.
em foco (invoco): vitor tripologos - olhares.com
rednick: ficou muito mais fácil carregar seus fardos.
em foco (invoco): bruno rodrigues - olhares.com
- desde quando é esse rio?
- desde sempre.
- é tempo! e ele sempre foi assim desse jeito?
- de que jeito?
- aguado.
- ah... bastante.
- aposto que incha quando chove.
- ih... esvazia demais!
- e esvazia como, se embebeda de água?
- esvazia de ser. até muda desse jeito aguado! joveia, sabe?
- sei demais. o rio é um camaleão desembestado. ninguém tomba vezes num mesmo rio só.
- deus mesmo nem se cuspiu de afivelar ele num traço de vida e de morte! é um sempre esse aguado. já botou reparo no tempo? que esse não tem ré? o rio é carne e unha com esse aí. e ainda se glosa tirando partido do eterno.
- mas será se antes do sempre ele escolheu caminho? ou foi condenado a servir no curso sempremente? viver tem suas pagas.
- bestagem! não há prenda maior que a vida: nem me amolam os tributos do tempo! quando penso que findaram meus viveres, o tempo se espreguiça comprido e ganho mais uns trocadinhos de existência! pago com rugas e desarranjos da memória.
- mas sabe que eu acho que é por isso que deus criou o rio com reflexo espelhado? só pra ele espiar que nós estamos fitando nele os vincos do tempo e se rir de lambido?
- acha mesmo?
- acho.
- que aguado! pois ele não sabe que quando me envergo nas bordas é pra espiar o céu seguindo no vento que o apanhar?
em foco (invoco): josé luís garcês - olhares.com
minha mãe foi quem adivinhou primeiro que eu era artista. e como que divulgou pros demais!
se eu tomava lições de ballet, às segundas e quartas, logo ela começava a me vigiar:-filha, não há talento que resista ao peso. e o doce esperava pra depois. minhas sapatilhas eram sempre as melhores que se podia comprar.
e no final das aulas eu tomava suplementos dignos de um atleta olímpico!
quando resolvi ser artista plástica, em vez de uma tela, ela me cedeu logo uma parede de casa. nela está registrado até hoje o que não sou.
depois dei pra fazer aulas de canto. e ela reclamou da cantoria! ara... dessa vez fui eu quem disse: - você ainda vai pagar para me ver cantar! -
e ela leva a família toda!
virei atriz de teatro. toda estréia ela vai como fosse noite de gala. sabe como que mãe da noiva? em casa ela dá de-cor meu texto todinho! (ela até já ta virando um pouco artista, sabe?)
se encasqueto de fazer cinema, hollywood que a segure!
acho que quando eu era pequena, eu devo ter dito com certeza: quando eu crescer eu vou virar artista! e com esse seu jeito de fada-madrinha, ela cuida até hoje pra que eu sonhe sempre.
em foco (invoco): geisa cruvinel - olhares.com
n.a.: o guarda-chuva foi desenvolvido com capacidade suficiente para suportar muita poesia. e chuva, naturalmente.
em foco (invoco): ricardo resende – olhares.com
em foco (invoco): j batalha - olhares.com
lamento dizer que não pretendo casar, ter filhos e que não tive um baile de formatura. assim, darei uma festa em um de meus aniversários já que envelhecerei, a cada ano, inevitavelmente.
em foco (invoco): rui soares - olhares.com
é preciso inventar comportamento para as coisas. manoel de barros.
há de se empenhar olhos nessa tarefa árdua de enxergar o nunca havido. mas invista em um bom par. estes fatigados de mundeza não prestam. recomenda-se aposentá-los. não, não! não os doe! dispense-os de vez. dispense-nos do risco de tropeçar na normalidade. perfeito. eis o exercício, porém seja discreto. os mais conservadores podem nos tomar por loucos ou mundanos. (qual lhe agrada mais?). pronto. agora espie alongado e veja o que não é. em tempo: pratique sem moderação.
isto não é um diário virtual. eu não privaria aos diários a voracidade de minha caligrafia. às teclas permitirei meu bla bla bla apenas por um desejo de descarga. esse interesse pungente das palavras. saidinhas elas!